Resenha
Como eu era antes de você
Jojo Moyes
Intrínseca
Esse fabuloso livro conta a história de
William Traynor, um homem de trinta e cinco anos que se vê tetraplégico após
ser atropelado e passa a necessitar de cuidados especiais, depois de viver uma
vida plena e cheia de sucesso, e de Louisa Clark, uma garota de 26 anos que
perde o emprego em uma cafeteria e torna-se sua cuidadora, uma vez que não
consegue mais nenhuma colocação por não ter nenhuma especialização. Louisa precisa do emprego, pois seus pais
passam por dificuldades, estando seu pai ameaçado de demissão também. Lou, como
é chamada, tem um namorado, Patrick, com quem está há sete anos, e que só pensa
em suas competições, maratonas sem sentido para Lou.
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Jojo Moyes |
Tudo vai relativamente
bem até Louisa descobrir que Will deseja ter um suicídio assistido e começa a
se esforçar para tirar a ideia da cabeça dele, programando passeios, que muitas
vezes se tornam desastrosos. O que ela não percebe, em princípio, é que sua
vida, totalmente sem objetivo, começa a mudar por causa de Will. Ele a leva a concertos, a faz se interessar por
livros e uma infinidade de coisas que ela nunca foi capaz de perceber que
estavam ali, ao seu alcance.
No início pensamos que a história é basicamente sobre Will e suas angústias e medos, sua condição que transforma sua vida em uma tormenta sem fim. No entanto, aos poucos, percebemos que, na verdade, tudo gira em torno de Louisa. Não percebemos de pronto que é dela, principalmente, que a autora fala; é de Louisa que se trata toda essa roda-viva de emoções. Jojo tenta nos mostrar que a vida de Will está resolvida, não tem uma chance de ser como era, ele não conseguirá mais ser o mesmo homem de antes, logicamente, e não aceita isso, o que é um direito seu. Por outro lado, Louisa precisa seguir em frente, encontrar uma identidade que parece não querer ter. Ela precisa se dar conta que é melhor do que pensa, que pode alcançar objetivos que acredita estarem longe de seu alcance. Notamos isso pela sua submissão no relacionamento com Patrick e sua atitude em relação à irmã. E Will, em todo seu drama pessoal, tenta mostrar a ela o que ele vê, seu potencial como ser humano e mulher. Uma das mais interessantes passagens do livro, em minha modesta opinião, é quando ele diz a ela aonde iria, se pudesse, naquele momento, mas no fundo, trata-se de uma sugestão:
" - Está bem - concordei com cuidado - Então me diga para onde eu devia ir. Aonde você iria se pudesse ir para qualquer lugar?
- Agora?
- Sim, agora. E não me venha com Kilimanjaro. Tem que ser um lugar onde eu possa me imaginar - expliquei.
O rosto de Will relaxou e ele ficou parecendo outra pessoa. Naquele momento, um sorriso brotou em seu rosto, seus olhos apertados de satisfação.
- Eu iria a Paris. Sentaria numa mesa na calçada do Café Marais, tomaria uma xícara de café e comeria croissantes quentes com manteiga sem sal e geleia de morango."
E em sua desesperada luta
para dissuadir Will de seu objetivo, Lou se vê apaixonada por ele e não sabe o
que fazer. Ela começa a perceber que sua relação com Patrick é vazia e que Will
era especial ao seu coração, como na seguinte passagem:
“Ele tinha cheiro de sol, parecia entranhado
na pele, e eu me peguei inalando aquele cheiro silenciosamente, como se fosse
algo delicioso.”
Um dos momentos mais belos da narrativa de
Jojo Moyes se passa em uma das viagens, quando os dois estão juntos olhando uma
tempestade:
“O mundo ao nosso redor
pareceu encolher, até que ele fosse somente o som da tempestade, o mar
azul-escuro cor de malva e as cortinas finas delicadamente se inflando . Senti
o cheiro das flores de lótus na brisa noturna, ouvi os sons distantes de copos
tilintando, de cadeiras sendo aproximadas às pressas. A música de alguma
comemoração ao longe; senti a carga da natureza descontrolada. Alcancei a mão
de Will e a segurei entre as minhas. Pensei, por um instante, que nunca mais me
sentiria tão intensamente conectada ao mundo, a outro ser humano, como naquele
momento.”
E Lou se declara. Mas Will, justamente por
sentir o mesmo, não aceita esse amor. Confesso que chorei. Foi sublime e
inebriante, poético mesmo, como Jojo Moyes bem sabe fazer:
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"beijei-o..." |
“Fiz a única coisa que
me ocorreu. Inclinei-me e encostei meus lábios nos dele. Will ficou indeciso um
instante e retribuiu o beijo. por um instante esqueci tudo: o milhão e meio de
motivos para não fazer aquilo; meus medos; o motivo para estarmos ali.
Beijei-o, sentindo o cheiro da pele, os cabelos macios nas minhas mãos. Quando
ele retribuiu, tudo isso desapareceu e ficamos apenas os dois numa ilha no meio
do nada, sob milhares de estrelas cintilantes.
Ele então recuou.
- Eu... desculpe. Não...
Abri os olhos. Coloquei a mão no rosto dele e
percorri seu lindo contorno. Senti o leve sal nos dedos.
- Will... – comecei a dizer. – Você pode.
Você...
- Não. – A palavra tinha um toque de aço – Não
posso.
- Não entendo.
- Não quero.
- Hum... acho que você
tem que aceitar.
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O filme vem aí |
- Não posso porque eu não... – engoliu em
seco. – Não posso ser o homem que quero ser com você. O que significa que
isso... – ele olhou o meu rosto – isso apenas se transforma... em outro
lembrete do que eu não sou.”
E então Louisa tem que mudar seu modo de
pensar, aceitar o que é lhe oferecido.
O desenlace dessa magnífica trama eu deixo
para que vocês, leitores como eu, descubram. Apenas posso afirmar que valeu a
pena cada momento, cada minuto em que passei lendo esse romance. Jojo Moyes é
inigualável no que se trata de mostrar que por trás de cada ação há um ensinamento
e neste livro Will mostrou a Louisa que ela poderia ser melhor, antes e depois
dele.
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